CHANA: «Para o António não havia limites»  
  Foi no Estoril, onde trabalha, que Vítor Carvalho (Chana) concedeu a entrevista. Chana participou pela primeira vez num Campeonato do Mundo em 72 (Corunha, Espanha) com Livramento. Além de 74, em Lisboa, participou ainda nos Mundiais de 76 (Oviedo, Espanha), 80 (Talcahuana, Chile) e 82 (Barcelos), onde foi Campeão do Mundo pela segunda vez. Nos 3 Campeonatos Europeus em que participou (Alemanha/73, Itália/75 e Porto/77), os 2 primeiros ao lado de Livramento, sagrou-se Campeão Europeu. Como jogador do Sporting CP, jogou contra Livramento (SL Benfica) e como colega de equipa quando Livramento se transferiu para o clube rival de Lisboa. Para Chana, LIVRAMENTO é um «ídolo» e foi um «jogador realmente incrível».  
     
  Recordações do Mundial de 74?  
  Chana As recordações são sempre boas, um hoquista quando é convocado para a Selecção – que é um dos objectivos máximos que é honrar as cores nacionais –, fica sempre de alguma forma motivado. Depois juntam-se nomes às Selecção que são aqueles que de facto quando iniciamos a modalidade são sempre os nossos ídolos e mais tarde vamos encontrá-los, como foi o caso do António Livramento. Portanto foi mais uma experiência para mim apesar de haver jogadores fortíssimos, era novo, comecei a conviver em 72 no primeiro Mundial que fiz, em 74 de um certa forma também ajudei. Foi um bom Mundial, Portugal acabou por conquistar mais um título, a juntar a tantos outros que de facto já tinha ganho.  
     
  Recorda-se de algum particularidade sobre esse Mundial?  
  Chana O Campeonato estava marcado para Luanda, para ser jogado em Agosto se não me falha a memória. Deu-se o 25 de Abril. Nós fomos com a devida antecedência para nos adaptarmos ao clima e à humidade que existe em Luanda. Iniciámos os treinos um pouco longe do Hotel Continental onde estávamos residentes, depois com o avançar dos dias a situação foi piorando, acabámos por deixar de treinar no recinto onde era habitual e onde iríamos efectuar o Campeonato do Mundo, começámos a treinar no FC Luanda, perto do Hotel, porque as condições de segurança não eram as melhores. Com o avançar do tempo, chegou-se à conclusão que face a toda aquela situação não haveria condições para efectuar o Campeonato do Mundo em Luanda, face a tudo isso regressámos a Lisboa.  
     
  Sobre António Livramento…  
  Chana É fácil falar do António e penso que é ao mesmo tempo difícil falar do António. O António foi um jogador que me marcou, porque o António é dez anos mais velho do que eu e de facto quando iniciei a modalidade o António era um dos meus ídolos. Como é lógico todos nós, não só do Hóquei em Patins como em qualquer outra modalidade, quando iniciamos a modalidade temos sempre os nossos ídolos, o meu foi e será sempre o António Livramento. Mais tarde o sonho tornou-se realidade, que é aquilo que nós desejamos, que é jogar ao pé do nosso ídolo, e de facto isso aconteceu pela primeira vez quando fui convocado para a Selecção, para o Mundial de 72. A partir daí acompanhei o António, tive o privilégio, depois de ser seleccionado, nas escolhas de quartos, de ter privado de perto com o António, eu era o colega de quarto dele. Era um jogador extraordinário, foi um homem que me ajudou muito, mas mesmo muito, como hoquista, me deu a mão e me orientou em muitas situações, e como homem me marcou imenso. Tive o privilégio também com o António Livramento não só de apanhá-lo na fase de jogador, porque para mim o António Livramento foi um dos melhores jogadores a nível mundial de todos os tempos, revolucionou por completo o hóquei em patins, e apanhei-o num outra revolução que ele fez também no Hóquei em Patins como treinador, porque é um facto, apanhei-o nessa transição porque eu ainda fiquei no Sporting, o António Livramento deixou de jogar, passou a treinar o Sporting e eu apanhei essa fase de transição.
  Tudo isto é fácil de falar acerca do António, a parte “difícil”, é a sua posição em campo como hoquista que sempre foi. Ele era um jogador exímio, toda a gente parava a olhar para o António, porque de facto o António conseguia fazer coisas do outro mundo, era inexplicável, nós chegávamos ao ponto de dizer «agora é que o António já perdeu a bola» e o António à última da hora se não sabia o que havia de fazer inventava um situação para se livrar de todas aquelas situações que os adversários criavam. Isto só é bem visível e é mais notório nos próprios hoquistas que o conheciam e que o acompanharam de perto, a vê-lo jogar. O António jogar para o público é um coisa, o público fica com um ideia, aqueles próprios jogadores que com ele privaram, acompanharam-no e viram-no jogar fazem um ideia ou têm um leitura completamente diferente daquela que o público faz, e de facto o António fazia coisas incríveis, só vendo! Ainda hoje o António é lembrado, nunca mais há-de ser esquecido. Eu de vez em quando lembro-me de situações em campeonatos europeus, e noutros quando joguei ao lado dele, que de facto só ver para crer. O António foi mesmo realmente um jogador incrível.
 
     
  Apesar de ter havido jogadores que marcaram uma época, como Correia dos Santos ou Jesus Correia, e depois Vaz Guedes, e mais tarde Fernando Adrião, Júlio Rendeiro e Chana (no seu caso), se não fosse António Livramento, o hóquei seria o que é hoje ou seria diferente?  
  Chana O hóquei tende sempre a evoluir e o hóquei evolui em função das novas regras que foram apreciadas e depois foram postas em circulação. O que é um facto é que os jogadores hoje em dia adaptaram-se às novas regras, elas avançaram, foram consumadas, todas as tácticas e a maneira de jogar dos jogadores, eu penso que se adaptaram a esse determinado tipo de regras. Eu penso que o Júlio Rendeiro marcou uma época, o António marcou uma época, mas eu penso mesmo que em relação ao António não havia qualquer tipo de regras que as pessoas pudessem inventar para de facto minimizar toda a grande categoria que o António tinha, eu penso que o António foi um grande jogador no passado e continuaria a ser um grande jogador no futuro fossem quais fossem as regras, eu penso que para o António não havia limites.